sábado, 15 de agosto de 2009

Cajofre e o dia de prova

Cajofre e o dia de prova

Escrito por Manoel R. Marreiros Neto.
Início de tarde e tudo nublado. Em Manaus isso não surpreende. Afinal, se não estamos molhados pelo suor, estamos molhados pelas chuvas de verão que chegam para afogar muitos projetos. Mas hoje não poderia chover. Não com o Cajofre estando desesperado para chegar a tempo na escola, para a prova da sua vida: a prova de fim de bimestre.
Cajofre não é um garoto diferente de tantos outros. É bacana, gosta de fazer amigos, morre de preguiça quando o assunto é limpar o quintal da sua casa... Mas é um cara “considerado”. Tão considerado que teve que bagunçar durante todo o 2° bimestre, para manter a fama, e acabou se ferrando nas avaliações e trabalhos de muitas matérias. Mas, de todas as matérias que ele mais estava preocupado era com a nota de Língua Portuguesa. Seu professor era muito exigente e ele sentia orgulho de si quando o professor dizia que ele tinha acertado ou que dera uma resposta original e criativa.
Porcaria! Por que justo com a matéria que ele mais gostava? Por que ficar pendurado justo na matéria Português? Mas não adiantava perder tempo. Havia estudado até meia noite e estava com todo o assunto fresquinho na cabeça. Não tinha como ficar reprovado dessa vez! Tiraria boa nota e manteria seu título de “considerado”, também com o professor de português.
Mas existe um tal de Murph (ele leu uma vez, na internet, as leis de Murph) que disse que, se uma coisa tem chance de sair errada, ela acaba saindo. Aquele dia começou todo errado: O pai de Cajofre, feirante, ficou doente e mandou Cajofre abrir a barraca e ficar a manhã toda na feira do Produtor, vendendo as mercadorias que dão sustento para a família.
– Mas pai, hoje eu tenho prova! Por que o senhor não manda o Jocafre? Ele só estuda de noite e fica sem fazer nada em casa! – A vontade de Cajofre era dar uma porrada no irmão preguiçoso que vivia na rua e não ajudava em casa. Sempre sobrava para ele, porque os pais confiavam nele e não no irmão largado.
– Menino, preciso que seja tu. Teu irmão tá “deprimido” porque a namorada deu um fora nele.
– (Também, aquele preguiçoso não trabalha! Quem é que vai querer namorar um vagabundo?) – Pensou o desesperado Cajofre. – Tá bom, pai. Eu vou.
É incrível como o relógio parece sacanear a gente quando estamos com pressa. O combinado com o pai, era abrir a barraca cedo (06 da manhã), e ficar lá na feira até o meio dia. Parecia que já era duas da tarde, mas o relógio do radinho que eles tinham na banca, não passava das onze e meia.
– Ai, caramba! Não dá a hora de ir embora! Vou me atrasar para a prova! Tanto dia pro professor marcar a prova e ele inventa de marcar justo pra hoje! Justo no primeiro tempo! Tô lascado!
A esperança vinha aumentando, à medida que ele via o relógio chegar perto do meio dia. Mas, de repente, começam a chegar fregueses comprando frutas, verduras, legumes. Parece que todo o bairro esqueceu de comprar alguma coisa e inventaram de ir justo na barraca de quem? Pois é. Vocês já sabem.
Cajofre corria de um lado para outro. Estava faturando legal. O pai certamente poderia pagar aquele último carregamento de banana que acabou dando prejuízo, porque o governo confiscou. Por que foi mesmo? Ah, lembrei! Parece que foi por causa de um tal de piolho vermelho... carrapato vermelho... Não! Ácaro vermelho. Isso! Uma praga que atacou umas plantações. O nome da praga era “Ácaro Vermelho”. Acabou que não venderam nenhuma daquelas bananas, mas tiveram que arcar com o prejuízo, pois o pai comprou fiado de um antigo amigo que plantava em Boa Vista e vendia para os feirantes de Manaus.
Meio dia! Mais do que depressa (Cajofre até parecia um maluco, carregando caixas e lonando a barraca numa velocidade de quem está com dor de barriga e está doido para ir para o banheiro!), fechou a barraca da família.
Correu para a sua casa. Entrou como um louco, deixando o pai assustado.
– O que foi menino? – Gritou o pai, de olhos arregalados.
– Nada, pai! Tô atrasado. Só isso – Respondeu enquanto arrancava as roupas e corria para o quintal, pelado, para tomar um banho (não podia chegar na escola fedendo a frutas e suor. A galera não perdoaria!).
Tomou o banho mais rápido da sua vida. Correu para dentro de casa, saltou para cima do fogão e enfiou a mão na panela.
– Ei, rapaz! Tá maluco? Pára um pouco e come. A escola não vai sair do lugar, sabia? – Disse o pai, já começando a se preocupar com o desespero do filho.
– Não vai sair do lugar, mas posso perder o “meu lugar” se não entrar na hora certa. Tenho prova no primeiro tempo.
Assim, pegou um pedacinho de frango, jogou na boca, pegou um copo de água, engoliu (parou um pouco porque se engasgou e até pensou que fosse morrer engasgado), e já ia sair quando seu pai berrou!
– Pára com isso, seu abestado!
Cajofre parou. Olhos arregalados e confuso.
– Que foi, pai? Não tá vendo que tou atrasado?
O pai começou a rir.
– Mas vai assim? Só de toalha? Vai fazer a prova assim?
Só então Cajofre viu que quase ia pagar o mico do século. Quase ia sair de casa só de toalha enrolada na cintura. Voltou, se vestiu e saiu correndo. Nem falou mais com o pai para não correr o risco dele pedir outro “favor”.
Estava quase chegando na rua da escola (puxa, aquele dia estava quente que doía!), quando de repente... Brum! Um trovão saído do nada e uma chuva que mais parecia que alquem estava baldeando o céu. O coitado do Cajofre parecia um pinto molhado. A roupa colava no seu corpo de um modo irritante. A calça parecia mais pesada. Seu tênis fazia um barulho parecido com o que fazemos quando mastigamos chiclete. Mas, ignorando tudo e todos, ele continuou... Parou só para perguntar as horas. Estava muito cansado e queria um motivo para parar de correr.
– Faltam cinco para uma hora. Disse o velhinho da parada.
Pronto. Estava atrasado. O portão da escola fecharia em quinze minutos e ele não conseguiria chegar a tempo. Não tinha dinheiro para pegar o “lotação”. Estava acabado. Perderia a prova, a chance de passar e o prestígio que tinha com o professor. Pra piorar, estava tão molhado que a lágrima de raiva nem era percebida, na hora que ele começou a chorar. Chorou por tudo! Raiva do pai que não mandou o irmão vagabundo ir para a barraca! Raiva do professor leso que inventou uma prova num dia de chuva e ainda mais no primeiro tempo. Raiva de ser pobre e não ter dinheiro para pagar um ônibus.
– Só não viro marginal porque jurei que seria um bom homem para minha mãe, antes dela morrer. Tenho que ser como ela me pediu: “um homem de bem”. – Balbuciava enquanto largava o corpo na beira da calçada, sentando.
De repente, um carro freia perto dele e ele toma um susto. “Será que é um marginal querendo me matar?”, pensou ele.
– Ei, entra no carro, rapaz! Vai chegar atrasado na escola. Por que estás tão molhado? – Gritava de dentro do carro, o homem.
– Dia complicado. – Disse isso ao perceber que a chuva, tão rápida quanto veio, havia ido embora.
– Sei. Mas isso só explica. Não justiça! Entra logo!
Ele entrou no carro sorrindo. Aquele homem estava sendo um amigão. Mesmo com a pinta de chato, exigente, estava parando para dar uma carona para ele. Sabia que ele não tinha essa obrigação. Mas estava feliz por saber que aquele homem o estava ajudando no momento em que mais precisava.
Iria chegar a tempo, fazer a prova e provar para aquele homem, que ele gosta de português, e que um dia será um advogado ou um dono de um grande mercado. Saberá usar tudo o que aprender na escola.
Quem era o homem do carro? Você ainda não advinhou? O homem do carro... era o seu professor.

Um comentário:

wellington disse...

aé! profº gostei da historinha!!
acho que isso serve como insentivo pros marmanjos que ñ querem nada com a vida!!! essa historia e uma grande exemplo!!!!
gostei mesmo!!!!