Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de julho de 2014

Quando a Escola vira Depósito.

Em uma sociedade hierarquicamente organizada, todas as instituições possuem papéis sociais definidos e existem unicamente como estrutura material e humana para o atendimento dos interesses coletivos. A palavra “depósito”, na língua portuguesa, tem sua origem do vocábulo latino deposìtum,i” que significa “o que se põe ou local em que se põe um objeto[1]. Se analisarmos as escolas enquanto instituições e a palavra em questão, veremos aspectos inspiradores e também devastadores nas concepções modernas que tendem a recair sobre as instituições de ensino.

Partindo da pior análise, vemos que a vida moderna tem, de um modo geral, “obrigado” pais e responsáveis legais dos menores em idade escolar a recorrerem às escolas como locais para o depósito de seus filhos/tutelados. No entanto, se pesquisarmos nos anais da literatura e dos dramas familiares, veremos que desde tempos antigos o uso de instituições de ensino como depósito já existia. Antigamente, os famosos “colégios internos” encerravam em seus portões histórias de abandono social praticado em nome da moral e dos bons costumes, ou mesmo em nome de uma vida menos atribulada, onde as famílias podiam seguir seus caminhos sem ter que se preocupar com os jovens problemáticos. Pagavam grandes somas em dinheiro para que as escolas escondessem seus filhos e suas vergonhas familiares, em nome do “bom nome”. Assim, as escolas “sumiam” com aquelas “ovelhas negras” e devolviam para o convívio social homens e mulheres formados. Nesse sentido, as escolas de hoje parecem encerrar os mesmos dramas e as mesmas hipocrisias sociais. Não raro é encontrarmos relatos de educadores que são obrigados a conviver com alunos problemáticos, cujos pais ou responsáveis parecem ter saído de enredos de obras literárias românticas: Pais com vícios sociais e morais que nos fazem questionar o porquê de terem recebido a graça da concepção se não possuem a menor vocação ou vontade para a educação de sua prole; pais que passam seus desvios morais aos filhos e não aceitam que a escola os corrija; pais que buscam provocar problemas na escola só para terem seus interesses pessoais atendidos; pais que abusam de seus filhos e mais parecem com inimigos públicos do que com pilares da instituição familiar... Enfim. Assim, as escolas acabam sendo obrigadas a se tornarem “depósitos” de vidas humanas, pois estas mesmas vidas se tornam meros objetos inconvenientes que precisam ir para algum lugar. Como resultado, vemos o progressivo câncer moral que parte da instituição “família” e deteriora cada vez mais a sociedade. Impotentes, também vemos a metástase dessa patologia social migrar para as instituições de ensino, que acabam se tornando barris de pólvora ou centros de refinamento da corrupção humana, já que poucos são os educadores que possuem forças para lutar contra essa realidade ou que recebam apoio da própria comunidade escolar para coibir essa dura realidade, ao menos dentro de seus portões.

Por outro lado, se analisarmos o lado positivo, veremos que o termo “depósito” também traz consigo a conotação de local para “guardar, proteger, preservar”. A partir daí podemos ver que as escolas passam a ser o “santuário” que existe com a finalidade de guardar as sementes do amanhã, na esperança de que se possa replantar uma nova geração mais bem formada e com menos mazelas sociais e morais na sua formação. No entanto, nessa perspectiva, tanto a família quanto a escola precisam redefinir seus papéis. Se por um lado a escola assume o papel de proteger nossos estudantes da “maldade que existe lá fora”, por outro os pais acabam assumindo a corresponsabilidade de proteger seus filhos e estabelecerem alianças profundas com a escola. Nesse cenário sociopolítico e pedagógico, passa a entrar em cena um novo tipo de pai, mãe ou responsável legal: O amigo da escola. Os pais que realmente se fazem presentes nas escolas (que são poucos) podem ser reconhecidos por latentes traços comportamentais: São presentes em todas ou ao menos na maioria das reuniões promovidas pela instituição de ensino; não se chateiam quando a escola os convoca para tratarem de assuntos envolvendo seus filhos/tutelados; procuram os educadores e a direção da escola para confidenciar problemas familiares e para pedir ajuda/conselhos; fazem questão de conhecer os professores e a direção da escola pelo nome; sabem a série, sala e até o nome de alguns colegas da turma do seu filho... e por aí vai. Escolas que possuem em seu público interno, pais assim, possui o luxo de se destacarem não apenas no contexto acadêmico, mas também no social. São instituições que constantemente se transformam e transformam a realidade da comunidade em que está inserida. Os estudantes desse tipo de comunidade tendem a ser mais bem assistidos na sua formação acadêmica e social, passando a serem vistos como verdadeiros “tesouros” guardados e valorizados grandemente pela sociedade produtiva.

Assim, como tudo gerido pela mente humana, a escola passa a ter seu lado positivo e negativo relativizado: Se é verdade que há escolas problemáticas, também é verdade que as famílias atendidas são tão problemáticas quanto essas escolas. Se é fato que há escolas de “excelência”, é fato óbvio que as famílias participantes dessas comunidades escolares são possuidoras do mais elevado valor moral e social, independentemente da posição socioeconômica que ocupem na pirâmide social. Portanto, quer queiramos ou não, é inegável que nossas escolas viraram depósitos. A pergunta que dá nó na garganta e na mente é: Qual é o valor dado àquilo que ela guarda?




[1] Conforme o Dicionário Eletrônico Houaiss, versão 3.0.

sábado, 14 de agosto de 2010

E lá se foi mais um dia do estudante...


Um colega de longas datas postou recentemente um artigo no portal do Diário. Estimulado por um amigo, fui lá e postei um "pequeno" comentário. Gostei tanto do que escrevi que resolvi trazê-lo para o blog. Aqui está:

Prezado professor:

Apesar de ver as boas intenções no seu discurso, não posso deixar de discordar dele em alguns pontos.

O primeiro deles é sobre a assertiva de que devemos “tomar o mundo feito coca-cola”. A analogia carrega um aspecto negativo que talvez o senhor tenha esquecido: o vício cirrótico do descaso e do relaxamento em nome de uma escola mais livre e simpática. Se o senhor observar os índices das escolas e as práticas que, como o senhor bem colocou, já fazem parte da praxe dominante dos calendários escolares, verá que o prazer dessa “coca-cola” que se busca, só dá gazes e açúcares noscivos às comunidades escolares. Não se vê esse tipo de “refrigerante” nas melhores escolas de Manaus. O Colégio Militar de Manaus, por exemplo, está com um Ideb médio de 6,0 desde que o índice foi criado. O mesmo se pode dizer das escolas da rede estadual que também tiveram bom rendimento. Tenho certeza de que lá, nessas escolas, não se busca florear a vida, mas estudá-la para se aprender novas formas de lidar com os desafios que a modernidade nos impõe. Assim como o dia tem três jornadas de oito horas, a vida tem três momentos distintos: o do descanso, o do trabalho e o do lazer. O desequilíbrio faz nascer as paixões que crescem e viram vícios sociais.

Acredito e concordo com o senhor: Podemos tornar a escola cativante com ações mais pedagógicas e menos demagógicas. Dar esse tipo de festa é a mesma receita que muitos políticos aplicam ao povo. Pão e circo não os deixará ver o grande problema que está por trás das tendas da educação. Se as escolas se tornarem mais informais do que já são, deixarão de ser escolas e passarão à condição de praças e centros de recreação. Enquanto isso, nosso Ideb geral vai sendo motivo de risos...

Os concursos públicos e os melhores empregos cobram conteúdos, professor. As escolas apresentam conhecimento, mas só se sai bem nos exames nacionais aquelas que valorizam a cultura e a disciplina. Enquanto a bola for jogada por esta regra, haverá a necessidade de ensinarmos e avaliarmos nossos alunos por provas escritas desta natureza.

O que me magoa e deprime é saber que, enquanto a sociedade não valorizar o verdadeiro conhecimento, veremos professores perdendo a motivação. Saímos das faculdades motivados, idealizados e idealizadores de uma educação que quebre esse círculo vicioso. Mas somos vencidos pela turma do “deixa disso”, que convive nas escolas promovendo festinhas para que não ocorram aulas normais. O que se ensina nestas festas? A dança do “rebolation”? A ver um filme de violência pela violência? O que aconteceu com os passeios aos museus? O que aconteceu com as visitas aos prédios culturais ou mesmo com a tradicional visita à Coca-cola, para saberem que esse famoso refrigerante surgiu como um remédio para dor de barriga?

A educação está na fase da metástase. Pena que não estejam buscando a cura para os problemas, mas a explicação para os sintomas.

A natureza do estudante é o estudo. E a etimologia de “estudo”, segundo Houaiss, compreende palavras que considero ótimas para terminar esse meu comentário: TRABALHO, CUIDADO, ZELO e VONTADE.

Feliz dia dos estudantes a todos que estudam!

domingo, 8 de agosto de 2010

LIVRO: INSTRUMENTO ATEMPORAL



Acredito que desde a invenção da imprensa, em meados do século XV, o livro passou a ser a expressão máxima do acúmulo e socialização do conhecimento. Muitos, porém, acreditam que a era moderna está trazendo a este símbolo do saber, seus derradeiros dias.

Não há dúvidas de que a novidade dos e-books, blogs, twiters e tantas outros modismos tecnológicos, representa uma ameaça ao livro. Mas eu acredito que este velho amigo ainda viverá muitos anos, pelo simples fato de que ainda não superaram suas principais caracterísitcas: valor intelectual, perenidade e praticidade.
Eu comecei com esses e-books quando comprei meu primeiro MP4. Confesso que a leitura foi, no começo, um vislumbre total. Mas quando, sem querer deletei meu primeiro e-book, comecei a perceber que livros digitais são facilmente descartáveis ou corruptíveis. Não dá para confiar que um vírus não possa bagunçar as informações de um e-book, tampouco afirmar que ele estará seguro por décadas, dentro de um pendrive ou HD. Olhando para as minhas velhas estantes, vejo um livro de psicologia datado de 1971. Mais adiante, na prateleira das gramáticas, vejo o meu primeiro livro de cabeceira: MANUAL PRÁTICO DE REDAÇÃO E GRAMÁTICA, do professor Alpheu Tersáriol, edição de 19?? ... Essas minhas preciosidades perduram até hoje, pelo simples fato de estarem protegidas pelas poeiras e pelo esquecimento de uma necessidade que não se faz constante. Será que um arquivo digital poderia ser assim?
O valor intelectual de um livro também é algo cuja legitimidade é mais difícil de ser questionada. O nome do autor, da editora e de todos os envolvidos no referencial bibliográfico de uma obra impressa, endossam a existência de um livro. Nesta era de informações, muitas bobagens e pseudoinformações são encontradas em links sérios (veja por exemplo a Wikipedia), blogs e tantos outros meios, posto que a filosofia atual é democratizar o conhecimento. Mas, com essa democratização, a quem cabe “o legitimar” esse conhecimento? Aos internautas? Com base em qual registro de propriedade intelectual? Google? Duvido muito que um médico, advogado ou pesquisador renomado usem como base, o conhecimento comumente divulgado em sites sem legitimidade. Isso seria, no mímimo, temerário.
Por último, mas não menos importante, vem a questão da praticidade. Hoje já se pode comprar um tipo de livro eletrônico, para se manusear e ler sentado numa praça, tal e qual faríamos com os livros tradicionais, de papel. Mas esses livros são caros, delicados e muito mais descartáveis que os tradicionais. Dia desses deixei cair uma valiosa gramática numa poça de água, durante uma chuva. Coloquei o livro para secar e estou lendo-o para um trabalho monográfico. Se fosse um livro eletrônico, minha monografia estaria ameaçada pela inutilização de uma das minhas fontes de pesquisa. É simplesmente assustador pensar que uma bateria fraca ou um pouco de água possam danificar uma obra. Livros de papel são bem mais resistentes. Faça um teste: derrame umas gotas de água sobre seu computador ligado. Pensando bem, melhor não fazer isso!!!
A única coisa que eu lamento profundamente, em relação ao livro, é o seu alto custo. Mas se considerarmos a relação custo-benefício, melhor que seja assim. É da natureza humana valorizar o que tem valor comercial.